Memórias do Teatro da Cornucópia um filme de Solveig Nordlund
Um filme de Solveig Nordlund em exibição a 26 de março
Memórias do Teatro da Cornucópia, um documentário, realizado por Solveig Nordlund, relatado por Luís Miguel Cintra e Cristina Reis, é um retrato daquele que foi, durante 43 anos, um reputado símbolo do teatro interventivo português. O rasgo da Cornucópia surgia na obscuridade fascista para combater no palco a ditadura. Entre os clássicos, nasce e morre um projeto, mas permanece icónico um rosto: Luís Miguel Cintra, que partilhou a sua arte com a permanente cumplicidade da cenógrafa Cristina Reis. Juntos, guiados por imagens, dão o seu testemunho contando esta história.
cardapio.pt @ 10-3-2026 13:29:00
Para Solveig Nordlund, realizar este documentário foi um processo natural, na medida em que teve uma relação muito próxima com o Teatro da Cornucópia, referindo que “conheço a Cornucópia desde sempre. Com o encerramento da companhia e sabendo que tinham um arquivo com muito material filmado, era natural que propusesse fazer este documentário.”
Sobre o Teatro da Cornucópia, Luís Miguel Cintra refere que “quando nos primeiros tempos do Teatro da Cornucópia, chegava o dia da última representação de um espetáculo, era para mim uma alegria desmanchar o cenário, acabar com o já estava feito porque se ia abrir um espaço novo para coisas diferentes, para um novo espetáculo. Lembro-me de que nos olhos dos outros não havia essa pressa, nesse último dia havia já saudades do que se tinha feito. Caía dos seus olhos uma lagrimita, E o que tinha ficado na memória fazia-lhes bem ao coração. Comigo passava-se o contrário. A minha relação com a passagem do tempo não assentou nunca num desejo de guardar vestígios, coisas acabadas, lembranças do já vivido. O que eu tinha era medo de não poder seguir para a frente, tinha sempre medo de não ter espaço livre para passar adiante. Nunca perdi tempo a remoer o já vivido, só quis sempre viver mais. E quando de facto a vida me pregou uma partida e me vi sem tempo nem local para estar vivo como sempre tinha vivido, pus-me a reunir num volume os textos sobre os espetáculos passados, a que chamei “Pequeno Livro-Arquivo”(64 páginas)! Senti que tinha de fazer alguma coisa para não morrer. Nunca me preocupei com a falta de registos antigos ou mais recentes. Mas quando percebi que os textos que escrevi para apresentar cada novo trabalho se tinham tornado em memória do que tínhamos vivido, e que essa memória resistiria ao esquecimento, resolvi com eles inventar outra coisa, continuar a viver. Agora sei que as minhas memórias são como a das galinhas, avulsas, sobrepostas, fragmentadas. Lembro-me quase só do que não fica numa lista de dados e de datas. Lembro-me do que vivi, não me lembro do que fiz. Ficou a fazer parte da minha pessoa, e só eu, se conseguisse, saberia dar forma a esses farrapos da consciência.”
Sobre o filme Memórias do Teatro da Cornucópia, Luís Miguel Cintra menciona que “a Solveig, que foi sempre do cinema, assistiu de dentro a bocados das nossas vidas e foi testemunha do que se passou no princípio da vida do Teatro da Cornucópia, e diante disso tanto viu mais, que fez em imagens a recriação em filme de uma peça de teatro, que tanto acreditou que o cinema podia fazer o que não é só imagem, podia reinventar o que se passou num cenário com um ator a fingir. Fez Música para Si com a Isabel de Castro. E percebi que outras pessoas que se preocupavam tinham querido, queriam, deixar testemunhos da verdade que vivemos. Linda Gomes Teixeira, o Luís Santos, até a própria Cristina, conservaram o que puderam daquilo que foi filmado, mas deixaram dispersos muitos fragmentos de cinema encontrados nas atualidades e reportagens das estreias para a RTP. A Solveig talvez nem sempre pareça, mas é exemplarmente teimosa e afetiva. Ela, não sei como, conseguiu encontrar bocados de vida, pedaços de filmagens variadas, que mais que imagens, ela transformou numa revelação: a vida que a gente deixou dentro do que fez, coincidindo afinal com memórias minhas e por certo dos outros com quem partilhei a vida. Ainda bem. Dá conta do mais importante de uma maneira de ser que ela conheceu e que tornou em cinema. Montou uma constelação de memórias que transbordam amizade, lealdade, inocência, e que gosto de sentir.”
Ficha Técnica
Filme narrado por: Luís Miguel Cintra e Cristina Reis Realização: Solveig Nordlund Montagem: Paulo Mil Homens Música Original: Pedro Marques Produtores: Jacinta Barros e Rui Simões Produção: Real Ficção
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