20/4/2017 a 21/4/2017 Tania Bruguera estreia "Endgame" no Mosteiro de São Bento da Vitória - Porto

A "artivista" cubana Tania Bruguera apresenta a sua primeira incursão na encenação Endgame, uma coprodução com o Teatro Nacional São João, na nos dias 20 e 21 de abril, em estreia absoluta no Mosteiro de São Bento da Vitória, no Porto.

cardapio.pt @ 18-4-2017 17:27:18

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"Endgame" ©Susana Neves

"Endgame" ©Susana Neves

Tania Bruguera cruzou-se, pela primeira vez, com Endgame em 1998 e, após esse momento, a “artivista” cubana viria a reler a obra de Samuel Beckett várias vezes, interessando-lhe as diferentes “camadas” que cada personagem apresenta. Agora, no momento em que se assinalam 60 anos da estreia da peça – e depois de ter criado uma instalação a partir do mesmo texto chamada Endgame Study #7 (2006) –, Bruguera estreia-se na encenação no Mosteiro de São Bento da Vitória (MSBV), no Porto, a convite da BoCA – Biennial of Contemporary Arts. O espetáculo, a partir da obra do dramaturgo irlandês, pode ser visto nos dias 20 e 21 de abril, às 15h00 e às 21h00.

Endgame retrata um universo pós-apocalíptico – Samuel Beckett escreveu a obra após a II Guerra Mundial – onde se “estuda” as dinâmicas de poder das quatro personagens: entre mestre e escravo (Hamm e Clov), entre filho e pais (Hamm e Nagg e Nell), entre amantes, entre pessoas privilegiadas e não privilegiadas. No entanto, para Tania Bruguera, a peça explora também a complexidade da dependência – a pessoa que está no poder apenas é poderosa enquanto os outros decidem servir – e a forma como controlamos o nosso “eu” servo e o nosso “eu” ditador.

Ao contrário das indicações de Samuel Beckett (conhecido pela grande minuciosidade nas suas didascálias), Tania Bruguera depende em grande parte da participação da audiência para o seu espetáculo resultar. E, contrariando também a cenografia habitual da obra – mas mantendo-se fiel às palavras do dramaturgo irlandês –, a artista cubana construiu, com a ajuda de um estúdio de arquitetos, uma gigantesca estrutura de metal cilíndrica (cerca de 8,50 metros), em forma de espiral, agora montada no claustro do Mosteiro de São Bento da Vitória. Neste palco/plateia, o público será convidado a “espreitar” a peça por entre umas cortinas, vendo-a de cima para baixo.

Endgame propõe, ainda, que as relações entre personagens sejam também transportadas para os atores que as representam. A peça tem dois atores profissionais (Brian Mendes como Hamm e Jess Barbagallo como Clov) e dois performers amadores (Lara Ferreira e Pedro Aires). O espetáculo conta ainda com duas voz-off (Chloe Brooks e Jacob Roberts) transmitidas através de um equipamento de som que está à volta do público.

O fim da Humanidade ou o seu recomeço

A primeira fala do ditador Hamm (“Minha… vez. De jogar”) bem como o título de Endgame remetem para um jogo de xadrez, onde o personagem principal é o Rei numa partida que, desde o início, está perdida. No entanto, este tenta, através de gestos repetitivos e rituais estabelecidos com o servo Clov, adiar o inevitável. “Ele [Hamm] está a resistir à derrota no final do jogo, tentando salvar a trágica dignidade numa posição fútil”, escrevem Chris J. Ackerly e Stanley E. Gontarski em The Grove Companion to Samuel Beckett: A Reader's Guide to His Works, Life, and Thought.

Esta noção de circularidade do jogo (existe um determinado número de jogadas a serem feitas até a partida terminar) é também uma metáfora para a existência – ou “não-existência” – cíclica que é transmitida por Samuel Beckett através de símbolos. Desde o facto de o cenário, na sua versão original, fazer lembrar o interior da arca de Noé – que, de acordo com Génesis, foi onde toda a vida terrena “recomeçou” – até às várias referências à crucificação – um martelo (Hamm, do inglês hammer) e os três pregos: Clov (do francês clou), Nagg (do alemão nagel) e Nell (do inglês nail). Ackerly e Gontarski comentam que o final da peça “prediz o fim do jogo, e assim o fim da humanidade, do nada ao nada, mas os padrões também sugerem um novo ciclo possível”.

Endgame e a luta contra o totalitarismo

Tania Bruguera, em entrevista ao The Guardian, assume que está “interessada em como Endgame traz as dinâmicas de poder para o nosso dia-a-dia”, acrescentado que “é relevante ver esta peça hoje, quando o mundo é seduzido por supostas figuras políticas fortes e quando a democracia é abusada em vez de ativada”. Empenhada em utilizar a arte como ferramenta de protesto, a cubana – que vive e trabalha entre Havana, Nova Iorque e Cambridge – já foi, inclusive, presa e libertada três vezes pelo governo de Raúl Castro por organizar uma performance sobre a liberdade de expressão na Plaza de la Revolución.

Um dos atos mais recentes de Tania Bruguera contra os governos totalitários é a sua candidatura às eleições presidenciais de 2018 em Cuba para chamar à atenção para a ausência de democracia no país. Galardoada com quase duas dezenas de prémios internacionais, a “artivista” tem uma carreira de mais de 25 anos e tem vindo a refletir sobre o efeito do poder político nas vidas dos indivíduos e grupos mais vulneráveis da sociedade, através de obras participativas que transformam os “espectadores” em “cidadãos”.

Endgame é uma coprodução BoCA, Colectivo 84, Théâtre Nanterre-Amandiers/Festival d’Automne à Paris, Kunstenfestivaldesarts, International Summer Festival Kampnagel, Estudio Bruguera e TNSJ. O espetáculo é falado em língua inglesa, sem tradução em português, e é para maiores de 16 anos. Dado que a peça se desenrola no interior de uma estrutura metálica e fechada, sem lugares sentados, não é aconselhável a pessoas que sofram de síndrome vertiginoso e de claustrofobia, bem como pessoas de mobilidade reduzida. É aconselhado o uso de roupa e calçado informal. O preço dos bilhetes é de 10 euros. Após a estreia absoluta no Porto, a peça segue em digressão para Bruxelas (Bélgica), Nanterre (França) e Hamburgo (Alemanha).


Informações

Datas: 20 e 21 de abril de 2017

Local: Mosteiro de São Bento da Vitória, Porto

Horário: 15h00 e 21h00

cardapio.pt @ 18-4-2017 17:27:18


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