Exposição: Rita Fernandes assume dedicação exclusiva à pintura com exposição de grandes formatos inspirados nas virtudes humanas

Exposição inaugura a 1 de novembro, no 8 Marvila com apresentação por Catarina Furtado

Com um percurso de cerca de três décadas ligado à pintura e às artes visuais, Rita Fernandes apresenta Virtues, um projeto expositivo de grande escala que parte de uma questão antiga, mas particularmente atual: que qualidades devem orientar aqueles a quem é confiada a responsabilidade de governar? A exposição está em Lisboa até 15 de novembro, antes de prosseguir um percurso de vocação itinerante por diferentes contextos.

cardapio.pt @ 28-10-2026 10:48:53

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No centro de Virtues – que conta também com desenhos, estudos, objetos e vídeo num projeto que cruza arte, poder, memória e condição humana - encontra-se um conjunto de quinze pinturas de grande formato, concebidas como partes de uma mesma construção visual e conceptual. Justiça, honestidade, empatia, coragem, responsabilidade, prudência, conhecimento ou visão são algumas das virtudes convocadas pela artista para pensar a relação entre ética, poder e responsabilidade coletiva.

Partindo de uma reflexão que encontra antecedentes na filosofia clássica, e, em particular, na associação entre governação, carácter e virtude, Rita Fernandes transporta essa interrogação para o presente através da pintura, como explica: “interessa-me pensar quais são as qualidades que deveriam integrar o carácter de alguém a quem confiamos a responsabilidade de governar. Não procuro dar respostas fechadas, mas regressar a valores essenciais e perguntar que lugar ocupam hoje no exercício do poder.”

E a pintora complementa a sua visão: “Virtues constrói-se também a partir de várias homenagens: àqueles que exerceram o poder guiados por princípios de justiça, responsabilidade e humanidade; à memória dos que perderam a vida injustamente, vítimas de violência, opressão ou de atos perpetrados por governos; aos animais, com quem partilhamos este mundo e cuja vida merece também respeito e proteção; e aos artistas cuja obra atravessou o meu olhar e alimentou este processo criativo.”

O desenvolvimento de Virtues prolongou-se muito para além do atelier. E, da investigação visual, histórica e simbólica, estendeu-se a um conjunto de conversas com personalidades provenientes de áreas muito distintas, da política à cultura, da comunicação às artes e à sociedade civil.

Entre os vinte e três interlocutores encontram-se, Mariana Mortágua, António Lobo Xavier, Dalila Carmo, Ricardo Alexandre, Rita Ferro Rodrigues, Ana Brito e Cunha, João Rosário, João Silvério, Filipe Botton e Francisco Kreye… e Rita explica assim o papel de algumas figuras: “as obras não são dedicadas às pessoas representadas. A escolha dessas figuras partiu sobretudo de afinidades subjetivas e de uma dimensão estética e plástica: rostos, expressões, gestos ou presenças que, por diferentes razões, me despertaram interesse enquanto artista e que senti vontade de transportar para a pintura. A seleção foi, por isso, essencialmente intuitiva e visual, determinada pelo modo como cada figura podia integrar e enriquecer o universo da obra.”

Figura, símbolo e memória

A figura humana ocupa um lugar central no universo visual de Virtues, convivendo com referências à escultura clássica, à arquitetura, à história da arte, à iconografia do poder e ao arquivo pessoal da artista.

Algumas pessoas surgem representadas nas obras, não enquanto destinatárias ou protagonistas de uma homenagem, mas enquanto matéria pictórica.

Determinadas fisionomias, gestos, posturas ou características visuais revelaram-se particularmente interessantes para a construção de uma figura ou composição. Não se trata, portanto, de obras dedicadas a essas pessoas nem de retratos no sentido convencional do termo, mas de escolhas formais integradas numa narrativa visual mais ampla.

Em Virtues, figuras humanas, embarcações, coroas, capacetes, pássaros, esculturas e fragmentos arquitetónicos coexistem num vocabulário simbólico que atravessa diferentes épocas e referências.

Esses elementos funcionam como sinais dentro de uma reflexão sobre autoridade, proteção, liberdade, vulnerabilidade, memória e responsabilidade.

Para além da pintura

Embora as quinze pinturas constituam o núcleo central da exposição, Virtues desenvolve-se através de diferentes suportes.

A mostra integra desenhos preparatórios, estudos e esboços que permitem acompanhar a construção formal e simbólica das obras, bem como objetos utilizados ou concebidos durante o processo de criação.

Uma componente vídeo acrescenta uma dimensão temporal e narrativa ao projeto, estabelecendo novas relações entre imagem, palavra, representação e memória.

Pintura, desenho, objeto e imagem audiovisual tornam-se assim diferentes camadas de uma mesma reflexão.

Apesar da monumentalidade física de algumas obras, Virtues parte de questões profundamente humanas.

O poder é observado não apenas através das suas estruturas e símbolos, mas também através das pessoas que o exercem, das escolhas que fazem e das consequências dessas escolhas.

Mais do que propor uma definição de virtude, Rita Fernandes constrói um espaço de interrogação sobre a relação entre carácter individual e responsabilidade pública — e, num plano mais amplo, sobre os valores necessários à construção e preservação de uma sociedade humanista.

cardapio.pt @ 28-10-2026 10:48:53


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